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A
Preparação
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Ora, na sua gravidez, tudo realmente parecia ser um sonho, ele já não bebia, trabalhava bastante, esforçava-se sobremaneira para que tanto a gestação quanto o nascimento fossem totalmente bem sucedidos; minha mãe passou a morar na casa da minha avó, mãe do meu pai, era "mimada" por todas as duas famílias, alimentava-se com o que havia de melhor, enfim, realmente era um sonho; o meu nascimento estava sendo aguardado por todos com muita ansiedade, todos os pensamentos eram unânimes: "essa criança é o símbolo de uma esperança perdida". No entanto, aquela criança, causaria uma certa mudança no mundo espiritual, os espíritos também tinham lá suas "esperanças", dentro em breve efetivariam a substituição cíclica existente no ocultismo satânico. Minha mãe, foi informada por um dos "mentores" do meu pai - o Omen, que, por causa daquela gestação, todos os espíritos subordinados a ele se afastariam, inclusive ele mesmo, para não causarem problemas; dizia ainda que viriam dois "mentores" de longe, de "outro planeta" durante toda a gestação. Repare, estes dois "mentores" que viriam para "assistir" a gestação, pertenciam a uma classe de demônios encarregados pela iniciação dos "instruídos" para a tão esperada vinda do Mahytrea, ou seja, o Quinto Buda, ou Anti-Cristo. Diz a minha mãe, que a manifestação deles era um tanto diferente da dos outros demônios subordinados ao Omen, era mais tranqüila, mais intelectual, era tão diferente quanto ouvir um analfabeto de pai e mãe, e depois ouvir a análise de um PHD em Astrofísica, enfim, era bem mais complicada; eles preferiam treinar a minha mãe a falar e ouvir telepaticamente, para que não precisassem usar as cordas vocais do meu pai, na maioria das vezes anestesiadas pelo álcool. Eles compartilhavam com ela acerca da terra, de outros planetas, especificamente de Marte, da sua estrutura física e etérea. Sendo assim, meu pai recebeu a instrução de colocar-me o nome de um deles, quando se desse o meu nascimento, a saber: Fénelon. Minha mãe não o permitiu, talvez pensando: "_ Você não colocará o nosso primogênito, nestas tuas histórias de Nova Era, de mestres cósmicos, e de outras coisas do gênero. Não. Eu quero que o nosso filho seja uma criança normal." Mas o seu pedido foi em vão, aquele "mestre cósmico" tinha ouvido a voz de comando do meu pai, e começava então a preparação para a minha iniciação, muitos anos depois. Saiba: Os pais, em especial o homem, possuem uma autoridade delegada por Deus, sobre seus filhos, até certa idade. Se não estou errado, até os cinco anos de idade, tudo o que entra na cabeça da criança, fica gravado. Sendo assim, os pais são responsáveis pelos rumos futuros de seus filhos. Como já disse antes, meu pai odiava a família da minha mãe, a única pessoa que ele dispensava alguma atenção e tempo, era ao meu tio; não porque meu pai havia simpatizado com ele, mas sim, porque os demônios tinham planos, e meu tio tinha sede do mundo espiritual, apresentando por assim dizer, algum potencial. Desta maneira, ele foi iniciado no ocultismo através do meu pai. Sendo, muitos anos depois, considerado pelas lideranças dos cultos afro como: Ashogan, ou "pai pequeno". Após o meu nascimento, constatou-se que meu pai não havia mudado, e sim piorado. Começamos a viver de favor, em total pobreza. Não restava mais dúvidas, minha mãe, por não agüentar mais a ausência do meu pai, devido o alcoolismo, pediria então o divórcio; e depois de muita luta, ela conseguiria. Foi o fim do sonho de uma menina sofrida, que para se ver livre da dependência paterna, ousou acreditar, por um só momento, que tal sonho fosse mesmo se realizar. Mas não; ela percebia então, que a vida não era nenhum sonho. E a realidade era terrível demais, para ser suportada por uma jovem inexperiente; ainda mais agora, carregando no colo o legado, o fruto do seu sonho de menina, o único "bem" deixado pelo seu príncipe, que já não era mais "encantado". Talvez ela tenha analisado também, que se não tivesse conhecido o meu pai, ela estaria usufruindo dos louros do glamour e do sucesso, resultantes do mundo da moda, ela com certeza teria sido bem sucedida. Mas aquilo já era, não havia mais o porque sonhar. A única coisa palpável e real, era aquela criança. Passamos então, a viver com meus avós maternos. Eu era uma criança extremamente doente, quando não estava internado nos hospitais, estava nos consultórios médicos a procura da solução dos meus problemas de saúde. Quando uma enfermidade era curada, outra aparecia. Minha mãe por assim dizer, sabia de cor e salteado os nomes dos principais antibióticos existentes. Sempre havia um horrível sentimento de que um dia daqueles eu morreria. Após alguns anos, minha mãe veio a conhecer por intermédio de sua melhor amiga, o homem que num breve futuro acabaria se tornando o meu padrasto. Um homem completamente diferente do meu pai; um homem descendente de judeus-alemães, o que por si só explicava, o seu caráter, bem como sua personalidade, ele era sério, trabalhador, seguro de si, calado, caseiro e metódico, que tinha como prática diária orar o "pai nosso" antes de se levantar e ao dormir. Haviam entre ele e o meu pai, apenas duas coisas semelhantes, a saber: o fato dos dois serem do sexo masculino e de possuírem antepassados judeus. De resto, somente drásticas diferenças; meu pai era um ocultista satânico e alcoólatra, meu padrasto era abstêmio radical e católico; meu pai tinha um ciúme doentio e exacerbado pela minha mãe, indo as vias de fato, ao seu modo, ou seja, usando de extrema violência, o meu padrasto era extremamente seguro de si, não demonstrando uma fagulha se quer de ciúme; enquanto meu pai era tremendamente sensível e emocional, meu padrasto era lógico e racional. Podia-se dizer que um era defensor dos pensamentos filosóficos de Platão, e o outro, das teorias de Albert Einstein. Mas ela estava apaixonada novamente, e passaram a namorar. Meu pai visitava-me na casa da minha avó materna de quinze em quinze dias, e sempre que isso acontecia, ficava alguém na espreita para que ele não me levasse; tais visitas foram cessadas por causa da intervenção da minha mãe, pois sempre que visitava-me, acabava levando-me para o bar. Mesmo assim, eu não entendia o porque dele sempre ter que partir e me deixar, eu não entendia porque ele não vivia conosco. Só sei que nunca pude experimentar o que era ter pai, as visitas eram sempre curtas, verdadeiros recordes mundiais de tempo, isso não se dava pelo fato dele ter pressa ou algum compromisso, mas sim porque a terrível sede pelo álcool, gritava mais alto, do que a voz do seu único filho pedindo colo. Após algum tempo de namoro, minha mãe e aquele homem resolveram morar juntos; e lembro que o primeiro pensamento que me veio a mente foi, se meu pai viria visitar-me naquele novo lugar. Mas, deixei aquele pensamento para lá e procurei curtir toda aquela novidade, puxa nunca havia conhecido até então, o que era ter um quarto só para mim, afinal tivera sido criado, na casa da minha avó, e era impossível eu e minha mãe termos um espaço somente nosso, e aquilo estava agora acontecendo, minha mãe estava nas nuvens, estava feliz pela atmosfera segura que a cercava. Ela podia se quisesse parar de trabalhar naquilo que ela mais amava, ou seja, a moda, pelo fato de que havia um homem que arcava com as despesas, tanto dela, quanto minhas; mas não, ela sempre insistiu no seu trabalho. Então, um dia, o meu pai resolveu procurar o meu padrasto, para agradecer tudo aquilo que ele estava fazendo por mim e pela minha mãe. Aquilo era fruto de um arrependimento que hoje sei, inflamava o seu coração. Essa lucidez era causada pelo tempo de sobriedade que ele conseguia através das muitas internações de recuperação. Meu padrasto amava-me de verdade, mas como todo homem, ele queria realizar o sonho de ter um filho; e no final de 1978, esse sonho tornou-se realidade, minha mãe estava grávida; eu sentia-me extremamente feliz, pelo fato de que em breve teria um irmão. Sem levar em conta as doenças, todo o resto caminhava muito bem; nós éramos uma família estável, equilibrada, e bastante segura; os louros desta segurança pertenciam sem dúvida ao meu padrasto. Parecia que o Universo conspirava, para que minha mãe tivesse um refrigério, um descanso da sua tumultuada e sobrenatural vida com o meu pai; e aquela parecia ser uma fase preparada para que ela arranjasse forças, a fim de suportar aquilo que ainda viria. Como é comum em todas as partes do mundo, as crianças adoram brincar umas com as outras, mas isso não era regra no meu caso. Em meio àquele novo contexto em que vivia, muitas vezes, eu preferia, ao chegar da escola, "cabular" as brincadeiras com os meus colegas, para ir, na maioria das vezes escondido da minha mãe, a um Centro de Umbanda que havia na minha rua; eu sempre era bem-vindo e eles sempre davam-me balas e doces. O ambiente daquele lugar me atraia, causando-me uma sensação de estar em casa quando lá chegava; e é lógico eu tinha cerca de 9 anos, sendo assim, qual é a criança que recusaria uma guloseima? Lembro-me que nessa mesma época, eu encontrava-me só na porta de casa, quando vi próximo do meu pé uma ponta de cigarro, e por curiosidade talvez, entrei em casa, apanhei sorrateiramente um fósforo, o meu coração disparava, voltei ao lugar onde estava a tal "ponta", e acendi fingindo que estava fumando, quando de repente minha mãe me surpreendeu, e me deu aquela bronca. Ora, eu fiquei bastante chateado pela bronca, mas por outro lado, a sensação do "estar escondido", de "desafiar o proibido", de ultrapassar a fronteira do "não pode", me pegou de tal maneira, que eu haveria de desejar conseguir obter essa mesma sensação, por muitos outros meios, mais e mais vezes. Eu era muito introspectivo, extremamente tímido, sofria de "terror noturno", tendo pesadelos terríveis com o meu pai chegando na minha nova casa, e me perguntando porque eu tinha permitido que aquele homem tivesse tomado o seu lugar; sem contar com o pavor sobrenatural de que minha mãe morresse, a sensação que eu tinha era de que ela morreria, ou me abandonaria a qualquer hora. Tivemos que nos mudar para Sorocaba, devido a transferência profissional do meu padrasto, foi uma grande época para as nossas finanças, vivíamos num padrão bem mais alto do que antes. Fora isso, uma coisa não havia mudado, as doenças não tinham ficado em São Paulo, pelo que, tinham vindo nas malas, e o pior, mais intensas e constantes. O medo da minha mãe, de me perder a qualquer momento, fez com que ela se apegasse a mim mais do que nunca. Eu me achava anormal, afinal quando não eram os exames, eram os hospitais, quando não eram as inalações, eram as injeções. Eu já não agüentava mais. No entanto, isso contribuiu ainda mais para o meu hábito de leitura, muitas vezes eu recusava um convite para brincar, a fim de ler. Era caso para o meu padrasto esporadicamente intervir e dizer: "_ Sai de casa Flávio! Vá brincar com seus amigos!" Mas sempre recusava, porque eu achava, e muitas vezes constatava, que as crianças da minha idade eram na sua maioria, completos "imbecis"; por outro lado, a convivência com os mais velhos me atraia muito. Nessa mesma época, a minha avó, mãe do meu pai, faleceu. Tal notícia fez com que minha mãe chorasse copiosamente. Eu, ao contrário, nada senti, pois, não tinha tantas vívidas lembranças dela. Muitas pessoas diziam que o meu pai havia sido o causador da morte de sua mãe. Aos 11 anos, minha mãe levou-me para tomar aquelas vacinas obrigatórias que acontecem todos os anos na maioria das escolas, após cumprir com a obrigação, andamos rumo a saída, e pude observar um adolescente, como que de "guarda", vestido de uma farda belíssima a nos cumprimentar, aquilo me fascinou e a minha mãe ainda mais; então, rapidamente procuramos saber o que aquilo era, e como eu poderia ser um deles. Acabei então, ingressando no Grupo Escoteiro de Sorocaba. Era muito emocionante na cabeça de um pré adolescente vestir aquela farda, cooperar com a comunidade local, acampar, aprender a cozinhar, montar uma moradia usando somente os recursos da natureza, a trabalhar em equipe, e por aí afora. Aquilo fez muito bem para mim, afinal eu tinha uma atividade realmente digna e reconhecida por todos, ainda mais quando houve uma tremenda inundação no município de Votorantim e fomos acionados para cooperar com o corpo de bombeiros, a fim de entregar mantimentos para os desabrigados, o que nos valeu sermos notícia de um jornal local. Em contrapartida, foi ali também, que tive o meu primeiro contato com a morte; um dos integrantes do Grupo havia falecido por causa da diabetes e como eu era o monitor da minha "patrulha", fui um dos escolhidos para levar o caixão em cortejo escoteiro. Foi uma experiência terrível para mim, por muitas noites tive pesadelos consecutivos, de que era eu quem estava no caixão. No entanto, o nosso Chefe Escoteiro era um kardecista, desta maneira comecei a ser influenciado sutilmente pelos seus ensinos a respeito da morte, do carma, e da reencarnação. Muitas vezes ele usava as nossas reuniões escoteiras, para nos doutrinar no espiritismo kardecista. Aquelas histórias me fascinavam. Ainda neste mesmo ano fui convidado por um escoteiro e sua mãe para irmos a uma chácara, onde estariam homenageando os "orixás", eu nem sabia o que era isso; a mãe do meu amigo convidou-me pois sabia que eu sofria de muitas enfermidades, e lá eu poderia ser ajudado e após ter o consentimento da minha mãe, fui para a tal chácara. Quando lá cheguei, imediatamente minha visão ficou turva, seguida de uma intensa e aguda dor de cabeça. Eu estava muito mal. Procuramos então, ajuda de algumas "yalorixás", que após alguns "transes" disseram: _"Ah! Nós conhecemos o menino, ele foi separado pela cúpula da espiritualidade maior e terá que DESENVOLVER, urgentemente." Logo após aquelas palavras impuseram as mãos sobre mim. Não tinha a mínima idéia daquilo que aquelas mulheres esquisitas haviam falado sobre mim, mas guardei aquilo no coração. Nota: Yálorixás significam "Mães de Santo" na terminologia ocultista africana. Desenvolver-se no ocultismo, significa tornar-se totalmente submisso aos demônios. Enquanto a pessoa em questão não tiver sua mente totalmente dominada pelos espíritos, ainda não terá atingido o desenvolvimento esperado. No ano seguinte, tivemos que nos mudar de volta para São Paulo, porque o meu padrasto havia perdido o emprego, e era a minha mãe quem sustentava a casa através das costuras, no entanto, São Paulo era o melhor lugar para que meu padrasto arranjasse depressa um emprego. Ele estava muito mal, muito irritado, pois toda a carga do sustento familiar estava sobre os ombros da minha mãe. Por outro lado eu achei ótimo, a mudança, pois afinal eu estaria perto da família que eu tanto amava, ou seja, a família da minha mãe. Tivemos que ficar hospedados por uns três meses na casa de uma das minhas tias, enquanto a nossa mobília ficava na casa de outra, isso porque, a nossa casa estava ocupada, e o contrato de aluguel demoraria alguns meses ainda, para ser encerrado. Aqueles meses foram terríveis para todos, inclusive para os meus tios, eles haviam nos cedido um dos quartos para morarmos; o mal humor, a irritação, as discussões eram bastante comuns entre todos. Na escola pela primeira vez na vida eu havia sido reprovado, aquilo magoou muito a minha mãe. Meu irmão, apenas uma criança como qualquer outra, vivia trancado no quarto, assistindo televisão, para não atrapalhar aos meus tios, com as suas correrias e traquinagens. Minha mãe dava-me o encargo de mantê-lo sob controle. Vinha constantemente sobre mim, um sentimento de que era eu o causador daquilo tudo, afinal, eu recebia broncas de tudo quanto é lado, além é claro de decepcionar a todos com a minha reprovação escolar, com as brigas que eu arrumava na rua, com as "más companhias" juvenis que eu andava, e por aí afora. A minha família paterna, não me procurava, salvo o meu avô que morava com uma de suas filhas, e que sempre pedia para que minha mãe me levasse para visitá-lo, a lembrança que eu tenho daquelas visitas, era que eu estava diante de um forte e inabalável Carvalho, era essa a sensação que eu tinha ao ver o meu avô. E também a minha tia que no passado sempre nos escrevia e nos visitava quando voltava de Nova Iorque, em férias. O contato só foi reativado agora no final dos anos 90, quando ela voltou definitivamente para o Brasil. Ela era a única das irmãs que expressava o seu amor ao meu pai. O restante, nem se quer dizia alô, mas como foi dito por alguém da família, eles eram assim mesmo, ninguém se fala entre si, ninguém tem tempo para compartilhar, e como todos sabem tempo é dinheiro. Nessa mesma época, meu pai expressava o desejo de querer me ver; era a minha tia quem estava intermediando essa possibilidade. Mas não sei porque, eu não quis ver o meu pai, não sei se foi por uma mágoa inconsciente, por medo, eu não sabia qual era a razão, mas mandei dizer não. Eu fiquei muito mal, aquele "não" parecia ser um "sim"; puxa, era o meu pai querendo me ver depois de tantos anos, porque tinha dito não? Como tudo na vida passa, aquilo passou, no entanto havia guardado aquilo no meu coração, atitude que cooperou ainda mais, para que eu mantivesse o meu silêncio e solidão corroendo o meu interior. Continue Este arquivo de dados é propriedade exclusiva de Flávio de Carvalho. Ele não pode ser alterado ou editado de nenhuma maneira. Ele pode ser reproduzido apenas na sua totalidade para circular como "freeware", sem custos. Todas as reproduções dos dados deste arquivo devem conter o registro de copyright: [i.e., "Copyright © 2007-2010 by Flávio de Carvalho"]. Favor incluir a seguinte fonte de crédito: http://www.fuiumdeles.cjb.net |