Capítulo Cinco

Aleister Crowley
Edward Alexander Crowley
(1875 - 1947)

Aleister Crowley, o conhecido e tão falado "Bruxo de Thelema", foi sem sombra de dúvida o maior mago do século XX. Suas explorações no campo das drogas e do sexo são enfatizadas em demasia por quase todas as pessoas que se põe a falar sobre ele. Essa sua faceta poderia ser explicada como uma fuga da assim chamada "pútrida sociedade ultrapuritana" em que foi criado.

O ano de 1875 foi de grande importância para o esoterismo no planeta, com a morte de Eliphas Levi, a fundação do Sociedade Teosófica, a primeira publicação de "Isis Revelada" por Helena Petrovna Blavatsky, o nascimento de Carl G. Jung e de Albert Schweitzer.

Crowley nasceu em 12 de outubro de 1875, em Leamington Spa, Warwickshire. Filho de um pastor de uma seita fundamentalista protestante: a "Irmandade de Plimouth" - cuja pedra angular de sua crença era o fogo do inferno.

Seu pai que também era dono de uma fábrica de cerveja, morreu cedo, deixando boas lembranças mente de infante, mas sua mãe, segundo ele, era uma "estúpida criatura", e as brigas da adolescência logo fizeram com que sua mãe o chamasse de "Besta", apelido que adotou posteriormente e que lhe trouxe boa parte da fama.

Na escola se mostrou um menino precoce, brilhante, dotado de uma inteligência invejável e dono de uma vontade inabalável. Logo destacou-se de seus companheiros por sua conduta rebelde e francamente anarquista. Até que foi culpado injustamente de um pequeno delito e foi posto de castigo, a pão e água, o que piorou sua já fraca saúde (tempos depois lhe receitariam heroína para a asma, substância que usou até os 72 anos de idade, quando morreu de parada cardíaca).

Crowley nunca esqueceu desse tratamento, e desde menino começou a achar que havia algo de errado com o "senso comum" da época. Decidiu ser um homem santo, e cometer o maior pecado, como em uma lenda dos Plymouth Brothers (culto de seu pai) que afirmava que o maior santo cometeria o maior pecado.

O protestantismo vitoriano foi uma das manifestações mais repressoras de que já se teve notícia e Crowley, juntamente com alguns artistas de vanguarda de sua época teve a ousadia de se colocar contra todo esse sistema de valores e criar um sistema próprio, que por pior que fosse era melhor do que o sistema estabelecido.

Como não conseguia seguir os caminhos comuns e normais dos demais garotos de sua idade, partiu para uma busca muito maior. Partiu para a busca de si mesmo, buscando conhecer os mais profundos segredos escondidos; no interior de sua própria mente.

Como "garoto-gênio", galgou rapidamente todos os degraus dos estudos esotéricos, transformando-se num ser possuidor de um vasto conhecimento ocultista e, principalmente, dotado de enormes habilidades paranormais.

A mente de Crowley, um misto de Nietzsche e Rabelais, com uma estética egípcia e um negro senso de humor, era, de certa forma, inescrutável. Apesar de freudianamente seus complexos serem óbvios, lendo Crowley nunca se tem certeza do que ele realmente quis dizer. Ele brincava com o leitor, geralmente o superestimando (principalmente nos primeiros livros, cheios de referências obscuras imprescindíveis para a compreensão da obra). Apesar disto escreveu compreensíveis poesias e prosas, mas que de forma alguma superaram o interesse do mundo na história de sua vida, atribulada, e trágica.

Para poder abalar as estruturas de um mundo calcado em radicais preconceitos puritanos, teve atitudes que assustavam até os mais liberais o que lhe valeu, por muito tempo, o ostracismo nos meios esotéricos, onde o seu nome era dito aos sussurros.

Na Universidade finalmente se encontrou. Com muito dinheiro (da herança de seu pai) e livre da repressão da família, exerceu todas as atividades pelas quais ficou conhecido: alpinismo, poesia, enxadrismo, sexo e magia, e, dizem, foi excepcional em cada uma delas.

Depois de 8 anos de aventuras, pesquisas e turbulentas viagens, durante uma série de invocações no Cairo (Egito), um ser identificando- se como Aiwass transmite a Crowley nos dias 08 a 10 de abril de 1904 o Liber Al Vel Legis, que passaria a ser mundialmente conhecido como o Livro de Lei. Este livro, entre outras coisas, serviu de base ideológica para a fundação da Sociedade Alternativa no Brasil, em 1974.

Crowley travou contato com a Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada), uma ordem pseudo maçonica de prática ritualística e iniciatória que esteve em seu auge no fim do século passado, quando Crowley a freqüentou. Subiu rapidamente pelos graus da ordem, mas foi barrado por um grupo de pessoas que chegaram a afirmar que a "ordem não era um reformatório". Crowley era desconsiderado pelos intelectuais e desprezado pela burguesia, fato que o pode ter levado a suas inúmeras viagens e expedições de alpinismo. Mago, ocultista, poeta, novelista, mestre de xadrez, alpinista, desde cedo orientou-se para a magia como meio de realização espiritual.

Crowley pode parecer extremamente arrogante e narcisista em seus escritos. Ele sempre buscou o reconhecimento e aprovação das pessoas, e quando notou que isso não era possível, mantendo sua crítica atroz aos absurdos do puritanismo inglês, ele resolveu aparecer, fazendo escândalos, reais ou falsificados, ao estilo do estereótipo "falem mal, mas falem".

Mesmo assim em sua autobiografia ("Confessions of Aleister Crowley") ele se mostrou extremamente magoado quando a imprensa marrom inglesa (conhecidíssima até hoje e abominada pela família real inglesa) inventava alguma coisa absurda e terrível ao seu respeito, como em uma ocasião em que o acusaram de comer carne humana na expedição ao monte K2.

A Golden Dawn recusou iniciação a Crowley, mas seu chefe, McGreggor Mathers não. Talvez interessado no dinheiro do jovem Aleister Crowley ele o iniciou em 18 de novembro de 1898 fez sua primeira iniciação na "The Hermetic Order of the Golden Dawn'', uma das mais influentes Ordens iniciáticas do final do século passado. Ao seu corpo de iniciados pertencia a nata da intelectualidade inglesa e européia (nomes como Willian Butler Yeats, Gustav Meyrink, Florence Farr, A.E.Waite, Sax Homer, Bram Stocker , Arthur Machen e muitos outros. McGreggor logo se tornou um mestre para Crowley, onde, sob o nome de Perdurabo, escalou multo rapidamente todos os graus internos.

Seus trabalhos mágicos e estudos místicos o levaram as mais diversas partes do mundo, experimentando com todas as formas de catarse e intoxicação, que considerava como bases da religião. Mas pouco a pouco se distanciava de Mathers, que a essa altura já havia se proclamado em contato direto com os "mestres" que regem a terra, e com isso seu autoritarismo se tornou insuportável. Crowley foi o único a defendê-lo até o final, quando percebeu que tudo não passava de uma farsa; terminando por defrontar-se com o chefe MacGregor Mathers.

A crença de que existe um grupo de iniciados secretos que carregam o conhecimento humano e são os verdadeiros "chefes" da terra é compartilhada no sentido estritamente literal por muitas pessoas e seitas. Crowley aceitou essa idéia de uma forma ou de outra até o fim da vida, mas empregou diversas interpretações para estas entidades, algumas baseadas na psicologia (recém estabelecida como uma ciência por Freud, na mesma época).

Deste conflito com MacGregor Mathers (uma guerra de bruxos), resultou o fim da Era de Ouro da Hermetic Order of the Golden Dawn, quando Crowley, desiludido publicou uma série de rituais secretos da Ordem, na revista "The Equinox"; sendo portanto, a Golden Dawn destruida por ele. Passando alguns meses afastado da magia, e pouco a pouco se reaproximou, trabalhando sozinho.

A partir de então o ocultismo pode em divulgado ao grande público, pelos demais ocultistas, sem que eles corressem o risco de romper um juramento de silêncio imposto por todas as ordens esotéricas, pois Crowley já havia rompido anteriormente por eles. Ele teria sido o precursor de todas as demais dissidências, que estavam por vir.

Em 1902, entrou para a Ordo Templi Orientis, e, então numa viagem ao Cairo em 1904, recém casado, sua esposa começou a falar algumas coisas estranhas das quais ela não poderia ter conhecimento. Ela o mandou invocar o deus Hórus.

Dessa invocação surgiu um texto pequeno, de três capítulos, intenso e esquisito, ditado por um dos "ministros" da forma de Hórus conhecida por "Hoor-Paar-Kraat", Harpócrates, Hórus, a criança. Aiwass era o nome dessa entidade, depois reconhecida como o Sagrado Anjo Guardião do próprio Crowley.

Com isso três coisas estão subentendidas: Aiwass era um dos "mestres" que regiam a presente Era, dedicado ao Deus Hórus, seu mentor; era também uma entidade não totalmente separada de Crowley, embora devesse ser tratado como tal, alguns poderiam dizer que ele era o self junguiano de Crowley (mesmo ele reconheceu isso), outros, maldosamente, que era sua Sombra (termo que em psicologia junguiana designa a parte de nós que reprimimos e que contém aquilo que temos medo de admitir); Crowley demorou cerca de 5 anos para acatar o que o texto dizia. Uma das profecias previa a morte de seu filho, que acabou por morrer mesmo, de doença desconhecida.

Quando finalmente aceitou o Livro da Lei, ele estava em contato com um corpo germânico de iniciados, que em outro livro dele ("The Book of Lies") encontraram um segredo de magia sexual que pensavam ter o monopólio no ocidente. Nem Crowley havia entendido o que tinha escrito, mas aceitou mesmo assim um alta posição hierárquica na Ordem. Era a Ordo Templi Orientis, que até hoje detém os direitos sobre os textos de Crowley posteriores a 1910.

Há, porém, outra O.T.O, a O.T.O.A. (Ordo Templi Orientis Antiqua, Antiga Ordem dos Templários do Oriente), liderada, atualmente por Michael Bertiaux e Courtney Willis, ambos de formação mágica franco-haitiana.

A O.T.O.A. manteve-se fiel à tradição mágica pré Crowleyana (em 1923, quando Crowley tomou a liderança da O.T.O. internacional, houve uma cisão, por parte dos membros da Ordem que não aceitavam a Lei de Thelema; essa cisão foi liderado por Tranker, que desejava manter a estrutura Massônica - principalmente ligado ao Rito Mênfis-Misraim de um lado, e, de outro lado, pelos seguidores do Movimento: da Igreja Gnóstica, da qual Theodor Reuss fazia parte), até fins da década de 1960, quando Bertiaux tomou o poder dentro da mesma, declarando-a uma Ordem Gnóstica, não Thelêmica, iniciática mas não-dogmática, além de fundir, dentro da mesma, Ordens fundamentadas na Gnose-Afro-Americana. (como a La Couleuvre Noire, a La Couleuvre Rouge, o Gnostic Voudoun, a International Brotherhood of Shamans,a Société des Zohops, e diversas outras) e no conhecimento tradicional do Vudu haitiano. Bertiaux também introduziu na O.T.O.A. os ensinamentos de Aleister Crowley, sem, contudo, adotar a Lei de Thelema como diretriz para a Ordem.

A O.T.O. existe até hoje (ou melhor existem, visto que houveram cisões e brigas e etc, que somando com os charlatões, devem somar mais de 30 O.T.Os., por alto. A maioria clama legitimidade.)

Crowley perdeu muito dinheiro publicando seus próprios livros e os vendendo a preço de banana. E a incompetência de um tesoureiro da O.T.O., que perdeu um galpão cheio de livros num lance mal entendido até hoje, acabou causando sua bancarrota final.

Além da O.T.O. que tinha bases maçônicas, Crowley criou em 1905, um corpo próprio, sua própria sociedade, designado como A.:.A.:..(Astrum Argentum - Estrela de Prata, ou A Grande Fraternidade Branca), esse corpo, muito mais velado, deveria servir como que "escola de treinamento" para os possíveis "mestres" da humanidade.

Crowley sobreviveu de doações e venda de livros até o fim da vida. E morreu em relativa miséria, ainda viciado em heroína, pouco tempo depois de terminar seu último trabalho, um livro sobre o Tarô que Lady Frieda Harris havia pintado com suas indicações.

Em 1920, em Cefalú, no sul da Itália criou a Abadia de Thelema, local onde, juntamente com seus discípulos, viveu a Lei de Thelema: "Faça o que tu queres..." e praticou livremente sua magia. Onde assumiu sua homossexualidade.

Crowley foi, certamente, o maior vulto do ocultismo dos últimos tempos e, talvez por isto mesmo, a mais denegrida e injuriada. Arauto de uma nova era, deixou como legado aos seus adeptos a pretensão de tornarem-se "Seres Divinos".

Hoje, quando se aproxima a Nova Era Satânica, ele renasce das cinzas, porque agora, no mundo em que vivemos, parece fazer sentido, para todos os adeptos ocultistas a teoria que ele pregou.

Após tantos anos (Crowley morreu em 1947), está se falando, de uma maneira mais aberta, o seu nome, agora seus livros estão sendo estudados com mais cuidado, dando assim condições, para os seus novos estudantes, de compreenderem melhor a sua "Lei", escrita lá no distante ano de 1904.

Crowley foi o primeiro homem que teve a coragem de quebrar os terríveis juramentos de não divulgação dos conhecimentos, a que todo pretendente aos estudos ocultistas era obrigado a fazer, quando de seu ingresso no círculo fechado do saber esotérico.

Em maio de 1974 a edição de uma importante revista especializada em assuntos esotéricos, publicou no Brasil, um artigo que dizia: "Em março de 1904, um homem chamado Aleister Crowley trazia ao mundo um livro de algumas dezenas de páginas, chamado "O Livro da Lei".

Quando o Livro da Lei foi publicado, todo mundo riu. E o livro foi esquecido. Há três anos, uma editora inglesa aventurou-se a lançar uma nova edição. Em dezembro do ano passado, tinha vendido 4 milhões de exemplares. E ninguém estava rindo mais... Inclusive o autor do artigo.

Referências:
"Confessions of Aleister Crowley", A. Crowley, Penguin "The Eye in the Triangle", Israel Regardie, New Falcon Publications "The Legacy of the Beast", Gerald Suster, Weiser
"Enciclopéldia do Sobrenatural", da LPM.

Continue




Este material é destinado unicamente para uso pessoal e não deve ser exposto publicamente em outras páginas da web. É permitido baixar este arquivo, copiar, imprimir e distribuir este material, desde que ele não seja exposto em um outro site da Internet. Pode-se, contudo, coligar este site para servir como referência destas mensagens.

Este arquivo de dados é propriedade exclusiva de Flávio de Carvalho. Ele não pode ser alterado ou editado de nenhuma maneira. Ele pode ser reproduzido apenas na sua totalidade para circular como "freeware", sem custos. Todas as reproduções dos dados deste arquivo devem conter o registro de copyright:

[i.e., "Copyright © 2007-2010  by Flávio de Carvalho"].

Favor incluir a seguinte fonte de crédito: http://www.fuiumdeles.cjb.net